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O Sadomasoquismo da classe dirigente

 “Estou preocupado com o futuro. A Osesp é um projeto meu, não deles. Mas, agora, é deles, daqueles que não me quiseram mais na orquestra, a responsabilidade de levá-la adiante. O perigo é imenso. A possibilidade de dar errado é grande porque não há projeto claro. (...) Não sou insubstituível, mas não concordo com a maneira como esta acontecendo a troca. (...) Mas, o que vai fazer uma Secretaria de Cultura que só desconstrói? Eu não durmo de preocupação! (...) O que mais me magoa é ver um trabalho reconhecido internacionalmente, uma posição que adquiri ser colocada em jogo com ligeireza. (...) Agora, insisto que não há razão artística para minha saída. O que existe é uma assessora do secretário, Cláudia Toni, que foi diretora da Osesp e cuja missão pessoal é, hoje, se vingar. Ela sempre foi assim, é uma pessoa muito indiossincrática.” ( John Neschling. Regente da Osesp com salário de R$ 100.000,00 por mês)

 

Nos últimos tempos, os músicos começaram a reclamar usando os meios de que dispunham -confidencialmente, por e-mails anônimos e em conversas particulares. Além disso, mas ainda em surdina, acumulavam criticas à própria condução artística da Osesp e à qualidade da regência.
O estilo autoritário da liderança do maestro impedia que essas reclamações chegassem ao Conselho da Osesp -havia medo de represália, de demissões. Verdade que, historicamente, maestros são temperamentais, difíceis de conviver. Atualmente, isso não é mais verdade. E o Conselho da Osesp não podia deixar que o futuro da orquestra e a obra do maestro fossem comprometidos pelas explosões do maestro na imprensa, no YouTube ou até em palco.
A preocupação máxima do conselho, da secretaria da Cultura e até dos amigos da orquestra, fãs de Neschling, era garantir uma transição tranquila. Demonstrar que o governo continua comprometido com o apoio à orquestra, que não existe conflito entre orquestra e governo. Não só porque não existe de fato esse conflito mas também porque essa é uma condição necessária para atrair e contratar novos maestros e músicos que permitam o crescimento ainda maior desse corpo musical.
( João Sayad, Secretário da Cultura do Estado de São Paulo, publaicado na Folha de São Paulo.)

 

Há quem diga, com razão, que o maestro John Neschling sempre repetiu ao vivo e a cores a tradição que parece fazer parte do folclore do ofício de maestro. Arturo Toscanini, uma lenda entre os regentes contemporâneos, era um ditador. Citá-lo, como paradigma, (inclusive do maestro brasileiro), entre muitos, é quase um lugar-comum. O que não entra na conta das obviedades, é o fato de que nunca, em momento algum, o Brasil teve uma orquestra com tantas qualidades quanto a que Neschling formou. Mesmo os instrumentistas mais empedernidamente contráros ao agora ex-regente da orquestra, sempre tiveram que a OSESP vale pelo que Neschling fez com ela. Se antes era difícil, senão impossível supor que a orquestra paulista contasse com alguns dos melhores nomes da regência mundial– no estrito mundo dos maestros de qualidade são pouquíssimo os que aceitam dirigir um conjunto deficiente - o que fica da sua demissão é uma grande incógnita.

(Enio Squeff, Carta Maior, 24/01/2009)

 

As três afirmações citadas acima dizem respeito a crise da OSESP – a orquestra sinfônica do Estado de São Paulo. Mas do que revelar o teor da crise, as três declarações acabam nos elucidando sobre como é compreendido o Estado, a coisa Pública, a coisa Privada e o cidadão. Então, se muito esforço, para que o leitor tenha algumas pistas e possa dar continuidade a essa reflexão, vão aqui algumas observações.

 

Sobre a declaração do Maestro:

. O projeto da orquestra é dela. Eu na minha santa inocência sempre acreditei que qualqer ação do aprelho de Estado fosse uma iniciativa Pública, isto é, atendendo os ditames e necessidades, assim como o planejado pelos orgão públicos. A OSESP é uma coisa pública. É como se o maestro reunisse na garagem da casa dele uma série de músicos para todaca música clássica. A diferença é que quem paga a conta somo nós;

. Outra revelação bombástica e que tenho que concordar com o Maestro. A secretaria de cultura do estado de São Paulo só desconstrói. Parece até frase dos irmãos Campos, mas não é. De fato o PSDB, nesse governo sem data para acabar, apesar deles condenarem a eleição ilimitada do Chavez, trasnformou a Secretaria de Cultura num grande laboratório de privatização dos equipamentos públicos. Entregou, por exemplo, todos os teatros do Estado para uma OS, isso feito sem licitação, edital e etc. e tal. Ou seja, a especialidade do PSDB em cultura, como foi na gestão do FHC, é entregar o Estado para a iniciativa privada;

. as coisas acontecem no PSDB por brigas pessoais. O mastro alega que está saindo por “ciúmes” de uma funcionária do Secretario etc. e tal, como se estivesse falando de “briguinhas familiares”. O cidadão nesta história está mais para escanteio do que qualquer outra coisa. Ele só paga a conta, porque nem aos concertos ele vai, porque são um fortuna e feito em horários que ele está trabalhando. Mas o que tem a ver o cidadão com música clássica, isto é coisa para a “elite branca” como fala o Claudio Lembo. Ele deve é ficar contente em pagar os impostos e saber que esta financiando a diversão de seu patronato

 

Sobre as declarações do Secretário:

. O secretário confessas que, tal como nos tempos da ditadura, a administração da secretaria e suas atitudes são tomadas levando em conta as “delações anônimas”. Olha só que horror. Essa afirmação nos faz pensar que todos os músicos da Sinfônica são alcaguetas. Não são capazes de discutirem as claras suas discordâncias. O que leva a supor que o clima da adminstração pública na Secretaria e na orquestra é de terrorismo de estado. Se houver  alguma discordância o cara vai pro “pau de arara”? Ou esse negócio de disque denúncia pegou mesmo no Brasil? Se pegou, olha que estamos falando da “elite cultural”, de músicos eruditos, a coisa tá feia.  Isso mostra como são as coisas na “alta cultura”. E ainda falam mal do populacho;

. uma coisa legal é ver como esse povinho da classe A, que detem mais de 80% do PIB nacional, acha normal o tipo do administrador “autoritário”. O secretário diz que o maestro ser temperamental é natural. É como se o fato dele ser temperamental, isto é , da pessoa ser temperamental, fosse um “selo de genialidade”. Mas é nisso que transformaram o país. Eu fico pensando, será que se um técnico da burocracia da Secretaria chegar um dia no serviço quebrando as coisas, o seu chefe superior vai achar isso normal? Se é assim, porque eles não acham normal quando o operário faz greve, que é muito menos “temperamental” dos que os provveis chiliques dos maestros? É um povinho que, no inconsciente, é chegado a ditadura. Bem, vale lembrar que alguns deles trabalharam para os Generfais em cargo de confiança;

. que bom o secretario dizer que a secretario e a orquestra não tem conflitos. Isso, como contribuinte, me alivia. O conflito é com a orquestra e o seu “dono”, o maestro. Bem, a secretaria não poderia ter conflito mesmo com a orquestra,. Segundo o maestro a orquestra é um projeto dele, logo a secretaria, esses anos todos não teve uma orquestra, só pagou as contras das brincadeiras musicais do maestro. Não é banca isso. E ele ganhava tão pouco, uns míseros R$100.000 reais por mês;

 

Sobre as declarações do crítico musical:

. a gente presume que a função do crítico é ter uma visão crítica de seu objeto de trabalho. Ledo engano. O crítico em questão tabém acha tudo muito “natural”. É naturalíssimo para ele que o maestro seja um ditador, um cara autoritário. Olha, se o maestro pode ser autoritário, porque os governantes, que são eleitos por eses voto viciados da democracia burguesa, também não podem ser. Não achava que era um fetiche sexual tão grande assim no mundo da música o “autoritarismo”. Será que esse pessoalzinho é tudo masoquista?

. ah, mas esstou sendo injusto. Se o maestro é autoritário mais a orquestra toca bem, então, tudo bem! Fico pensando e chequei a conclusão, porque tanta gente elogiava o Pinochet, o ditador autoritário, para se rredundante, do chile: é que a economia do país cresceu, enquanto ele matava uns chileninhos metidos a besta que tinha por lá. Ou seja, se o país cresceu, porque condenar os assassinatos do Pinochet? Se vale para um maestro de orquestra, porque não valeria para um ditador? Ou ainda se tem vários pesos e várias medidas? Ou o pessoal da música acha que o seu mundinho é distante do mundão que existe fora das salas de concerto?;

. o crítico, também faz o silogismo legal. Olha, o fato do maestro da OSESP ser como é e ganhar o que ganha tem sentido porque nenhum maestro quer reger orquestra ruim. E o coitadinho do John, interessante esse nome e o seu sobrenome, tão nacional, criou seu brinquedinho, fez ele funcionar bem, e agora, injustamente, os FHC e cateva, epa eu escrevi FHC? Quer dizer que ele nãoa guentou não ser Presidente teve que arranjar uma associação para presidir? Será que ele levou o cabeção seu Ministro da Cultura para ajudá-lo? Bem, o fato que o coitadinho do maestro fez a orquestra tocar bem e agora tiram dele seu brinquedinho de estimação. Esses homens públicos insensívbeis? Eta povinho ingnorante que não reage a esse ato injusto e pede para ele continuar mandando na orquestra e fazendo o que quiser com o dinheiro público? O seja, no país o Público é dessa casta de afortunados que estão no poder desde os tempos coloniais e o transformou em coisa Privada. E nesse caso não adiana o FHC falar que tem um pe´na Senzala. Se tem é para bater na mucamba de plantão!

 

PS.: Quem conhecer um ditadorzinho bom de regência e que confunda o público e o privado, favor indicar para a OSESP e o Secretário de Cultura do Estado de São Paulo.

A imprensa está tentando transformar a "crise" da OSESP em fato tão importante quando a crise financeira internacional. É como se a OSESP e a música clássica, restrita a "meia dúzia" de brasileiros, fossem tão importante quanto qualquer time de futebol brasileiro. Ou seja, todo mundo está interessado em ver seu desfecho. É ex-Presidente pousando de Dom João VI, com papagaio de pirata respondendo as questões para ele; maestro posando de "persedguido" político, só falta agora ele pedir asilo político na Itália e secretário bovarista contratando regente substituto francês. Com essa contratação francesa a coisa fica assim, para o secretário de cultura do Estado, o sr. João Sayad: arquitetura no Brasil só fornece pedreiro (o caso da sala de dança que contratrou escritório da comunidade européia); restaurador de filme no Brasil é europeu, brasileiro é bom para ficar buscando as latas de filme e servir o cafézinho; e em música clásica brasileiro é bom para montar as estantes e colocar as partituras. Ou seja, melhor do que isso é a gente ter que pagar o importo para sustentar uma coisa que não se tem direito. E a cultura paulista e brasileira que se liche, afinal, esses "nativos" só servem para encher o saco!

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 Por falar em nativo, qual é a da Itália? De uma hora para outra virou em grande defensora dos direitos humanos com direto a esculhambar o Brasil. O caso Batisti virou crise diplomática internacional. Será que é porque eles se arrependeram de não terem dado conta dele no território italiano? O que é interessante é a reação de nossa imprensa. Antes de ter todas as informações do caso, sairam em defesa dos argumentos italianos. O pensamento é "bovarista" como o da crise da OSESP. Se a Itália diz que ele é crimonoso, então, quem é o Brasil, país tropical, para dizer que ele é ativista político? Ora, como pode um subdesenvolvido questionar um país do primeiro mundo? A itália é país de primeiro mundo? Mesmo tendo o Berluisconi como Presidente? Por falar em Berlusconi se a justiça italiana está tão sedente de justiça porque não prende o Berlusconi? Essas coisa ninguém diz. Se a Itália continuar dizendo desaforos do Tarso Genro a gente deveria deixar de comer Pizza. Ai sim nós iamos criar uma crise diplomática. Ia ter um monte de italiano que vive nessa "esbornia", como disse o Ministro Italiano, chiando contra seu conterrâneo. Por sinal, os italiano são tudo boa gente, então, pra frente que atrás tem gente! 



Escrito por maiafolias às 12h58 PM
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A Marola Que Virou Tsunami

 

ENTREVISTA: CHICO DE OLIVEIRA

"Vargas redefiniu o país na crise de 30; a chance é que o PT faça o mesmo na primeira grande crise da globalização"

Em entrevista à Carta Maior, Chico de Oliveira analisa o que considera ser a primeira grande crise da globalização capitalista. "Estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século", afirma. O sociólogo torce para que o PT tenha coragem e capacidade para ajudar o país a deflagrar um ciclo inédito de investimento pesado na economia. "Algo como criar cinco Embraer's por ano", exemplifica.

Redação - Carta Maior

Data: 06/01/2009

Dona Joventina preconizava para o filho Francisco Maria Cavalcanti de Oliveira uma carreira venturosa no sacerdócio. Chico, porém, era apenas um em uma prole de onze; isso deve ter facilitado a desobediência ao roteiro materno. O desvio do percurso o levaria ao engajamento profano que começou com a adesão ao Partido Socialista, aos 20 anos de idade; mas nem por isso a rota gauche o afastou da leitura dos evangelhos. É tomando emprestado a palavra dos profetas que o sociólogo nascido em 7 de novembro de 1933, em Recife, companheiro de Celso Furtado no início da Sudene, fundador do PT e do PSOL, hoje um analista mordaz de ambos com reflexões que incomodam mas não são ignoradas, resume as esperanças -"talvez fosse melhor dizer a torcida", retifica- em relação ao papel que a esquerda brasileira, especificamente o PT, poderá jogar diante do que classifica como a "primeira grande crise da globalização capitalista".

"Aproveitai as riquezas da iniqüidade, aproveitai", acentua o sociólogo, doutor honoris causa pela USP e pela UFRJ. Chico adiciona à evocação de São Paulo um sentido de engajamento que resume a brecha diante da qual, à moda gramsciana - cético na razão, otimista na ação, torce por um aggiornamento do projeto petista para a sociedade brasileira.

O hiato de reacomodação capitalista que se abre agora, ao contrário, reservaria à esquerda, no seu entendimento, uma paradoxal possibilidade de repetir a história modernizante , mas não como farsa -"o que seria uma tragédia"-- e sim como ousadia e criatividade condensadas em um projeto democrático popular. "Trata-se de recriar um 1930 do século XXI". A alegoria serve apenas para resumir o torque que se cobra das forças dispostas a superar a crise como requisito obrigatório para derrotar a coalização conservadora liderada pelo PSDB em 2010. "Na grande crise capitalista de 1930 tivemos uma reordenação do desenvolvimento brasileiro enfiada goela abaixo da plutocracia paulista", lembra Chico de Oliveira para dar o crédito à visão de estadista de Getúlio Vargas. "Aquele foi um projeto arquiteto por cima; desta vez trata-se de fazer uma reordenação tão profunda,ou maior; mas induzida por baixo, pelas forças sociais da base da sociedade brasileira em nosso tempo".

O PT, no seu entender, seria o operador desse aggiornamento histórico do desenvolvimento. "É quem dispõe de massa e de liderança, enquanto os demais agrupamentos socialistas constituiriam a ponta de lança instigadora do processo". Carta Maior:

Carta Maior - A crise financeira atual repõe a centralidade do trabalho, ou seja, devolve à esquerda o sujeito histórico que ele acreditava ter se esfarelado na história?
Chico de Oliveira - Na verdade, não concordo que essa seja uma crise financeira; tampouco acho que a sua origem esteja nos mercados financeiros centrais. A meu ver estamos diante de uma crise da globalização do capital. Todas as outras também foram crises globais, claro, devido à centralidade do capitalismo norte-americano. Mas essa crise não floresce exatamente num ponto geográfico; à rigor, se formos localizá-la seria na incorporação da mais-valia gerada na China e na Índia nos últimos vinte anos; novidade esta que influenciou o conjunto da globalização capitalista e redundou no atual colapso; uma crise de realização do valor. O sintoma financeiro é sua manifestação mais evidente, mas não a sua essência.

CM - A essência seria o barateamento da mão-de-obra mundial?
Chico - A essência é a impossibilidade de realizar o valor gerado por ela; ou seja a mais-valia extraída da incorporação adicional de 800 milhões de novos operários baratos ao mercado de trabalho mundial. Isso produziu uma revolução na medida em que dobrou ou triplicou a oferta de mão-de-obra oferecida ao capitalismo, dilatando a fronteira da mais-valia, sem contudo propiciar uma expansão equivalente da capacidade de realizá-la.

CM - Por quê?
Chico - Porque o custo de reprodução de mão-de-obra nas sociedades onde se expande a nova fronteira da mais-valia, casos da China e da Índia, principalmente, é muito baixo, ainda que a exploração esteja aliada à tecnologia de ponta. Estamos diante de uma crise clássica de realização do valor, amplificada; uma crise da globalização capitalista. O colapso das hipotecas nos EUA é a manifestação disso. De um lado, a produção na China e na Índia barateou o consumo norte-americano; propiciou também sobras de capital na periferia para financiar o Tesouro dos EUA. A China sozinha tem mais de US$ 1 trilhão aplicado em papéis do governo Bush. De onde saiu esse dinheiro? Certamente não foi geração espontânea. É mais-valia extraída do operário chinês que não se realiza lá porque o custo de reprodução da mão-de-obra local é baixíssimo.

CM - Mas a crise não marca o esgotamento dessa endogamia China/EUA?
Chico - Ela funcionou bem durante algum tempo e continuará a girar porque é proveitosa aos dois lados. Ao mesmo tempo a engrenagem esfarela o mundo do trabalho urbi e orbe; os assalariados norte-americanos simplesmente não têm fonte de renda para o padrão de consumo que ainda desfrutam; estão devolvendo casas e vão morar em garagens coletivas, dentro dos seus carros. Obama teria que elevar brutalmente o poder aquisitivo dessa gente para contornar a crise. Fará isso? Honestamente, não sei dizer. O fato é que as implicações desse processo devem ser estudadas cuidadosamente; estamos diante de algo maior que a própria manifestação financeira da crise; algo que persistirá para além dela e condicionará todos os passos da história neste século

(NR - CM levantou alguns dados que reforçam as preocupações de Chico de Oliveira: a incorporação ao mercado capitalista da produção chinesa, indiana e de países da antiga União Soviética colocou trabalhadores de todo mundo em concorrência internacional direta pela primeira vez na história; trabalhadores ocidentais tornaram-se minoria num mercado mundial que ganhou 1,2 bilhão de operários adicionais nos últimos 30 anos; 350 milhões de trabalhadores treinados, e mais caros, do Ocidente, responsáveis pela maior parcela da produção global até recentemente, estão sendo desalojados de empregos e salários; das 3 bilhões de pessoas ativas no mercado global hoje, metade ganha menos de US$ 3 por dia.

A China, a nova oficina do mundo, tem um custo/hora do trabalho de US$ 0,60, contra média de US$ 30/h na Alemanha, US$ 21 nos EUA e cerca de US$ 4,50 no Brasil .Resultado: dados compilados pela Comissão Européia revelam que a parcela de riqueza destinada atualmente aos salários é a mais baixa desde 1960 (o primeiro ano com dados conhecidos). Em contrapartida, a riqueza abocanhada pelos detentores do capital financeiro vinha batendo recordes seguidos até o colapso atual. A produtividade ao mesmo tempo não pára de crescer -desde 2001, cresceu 15% nos EUA e saltou em média 8% a 10% ao ano na China. Entre 1990 e 2004, a participação dos produtos chineses no total de bens importados pela AL cresceu de 0,7% para 7,8%. No mesmo período, a fatia dos produtos brasileiros na região subiu de 5,3% para 6,5%)
.

CM - O que o senhor está dizendo é que a tentativa de equacionar a crise a partir de sua manifestação financeira não basta ?
Chico - É isso. A contribuição de Chesnais à compreensão da dinâmica capitalista foi importante num outro momento porque os marxistas sempre tiveram dificuldade em lidar com a questão financeira. Mas a interpretação chesniana não dá conta da crise atual. É uma crise de realização do valor.

CM - 1930 também foi uma crise de realização do valor e se resolveu....
Chico- Uma crise de realização do valor circunscrita ao território das economias centrais. Ainda assim exigiu um Roosevelt; e uma Guerra mundial para ser contornada. Esse paralelo apenas reafirma a gravidade do que temos diante de nós; e o que temos é uma crise da globalização à 29; o ferramental dos anos 30 não dá conta disso.

CM - O receituário keynesiano?
Chico - As opções keynesianas valiam para uma economia fechada que podia conter a livre movimentação de capitais; hoje você precisaria de um dinheiro mundial para regular a parafernália financeira; socorrer déficits em conta corrente e harmonizar desequilíbrios comerciais etc. O dólar não é isso; o dólar é uma moeda hegemônica, não é o dinheiro único que o instrumenal keynesiano necessitaria para ter eficácia atualmente.

CM - Estamos diante de um longo processo de solavancos e limbo sem redenção...
Chico - Uma crise longa, dura, que exigirá reacomodação brutal de forças e vai impor mudanças em todo o mundo e no Brasil também. Mas não tenhamos ilusão: o capitalismo não chegou ao limite. Tampouco é o fim da associação China/EUA; de algum modo ela prosseguirá porque é proveitosa aos dois lados. Ademais, o capitalismo não se destrói, ele é superado, como o leitor atento de Marx bem sabe.

CM - Que espaço sobra para a periferia do sistema, caso do Brasil, entre outros?
Chico - Estamos emparedados entre a concorrência chinesa e a desordem financeira no coração do capitalismo. A crise nos pega no meio do caminho e, naturalmente, não podemos regredir e adotar um padrão chinês de salários de miséria. Alguns até gostariam, mas não dá, felizmente não dá mais e tentar seria uma calamidade social de proporções incalculáveis.

CM - Qual opção à paralisia, se é que existe uma - e viável?
Chico - Não existiu Vargas em 1930? A opção é uma soma de coragem política e investimento público pesado. Criar algo como cinco EMBRAERs por ano em diferentes setores; promover uma superação do modelo ancorado-o agora em forças sociais da base da sociedade. Carlos Lessa sugeria isso no BNDES, no começo do governo Lula; não deixaram...

CM - Mas o Brasil de Vargas não existe mais...
Chico - Para Getúlio também não foi fácil, mas ele fez. E fez à revelia da plutocracia mais poderosa do país; enfiou seu projeto goela abaixo da burguesia paulista e se firmou como um estadista da nossa história. A elite paulista jamais admitirá, mas ele foi o grande estadista do desenvolvimento nacional.

CM - Haveria espaço para esse salto nas condições do capitalismo do século XXI?
Chico - A crise é tão grave que abre um período de suspensão do hegemon; não sua derrocada, mas um hiato para lamber as próprias feridas. Isso tomará boa parte do tempo e das energias desse Obama, em relação ao qual, diga-se, não compartilho do otimismo de muita gente de esquerda. Mas o fato é que ele estará ocupado e com uma quantidade apreciável de problemas. Abre-se um espaço, portanto. Talvez até mais que isso: haveria uma potencial complementariedade de interesses se tivéssemos aqui um arranque de investimento público pesado. Isso de certa forma repercutiria positivamente no coração da economia norte-americana. Estamos diante de uma fresta histórica: uma suspensão do hegemon e um espaço de complementariedade para remar na mesma direção, o que poderá favorecer os dois lados a sair do buraco...

CM - Internamente a elite talvez não veja as coisas assim, como propriamente complementares, quando se associa crescimento a um arranque pesado de investimento público.
Chico - Nossa burguesia se transformou em gangue. Expoentes nativos são figuras do calibre de um Daniel Dantas ou esse Eike Batista que opera dos dois lados da fronteira boliviana; não se pode contar com protagonistas dessa qualidade para qualquer coisa, menos ainda para uma agenda de desenvolvimento. Não há saída por aí. Mas o Brasil também não teria saído da crise de 30 se Vargas fosse esperar a mão estendida da plutocracia de São Paulo, por exemplo. Ele ocupou o espaço e fez.

CM - Logo...
Chico - Logo precisaria reinventar o PT; um PT com a ousadia de um Kubitschek e de um Vargas; para fazer por baixo o que eles tentaram e fizeram por cima; um arranque do desenvolvimento induzido pela base social para mudar a economia e a sociedade. Cinco EMBRAERs por ano e ponto final.

CM - O senhor acredita nesse aggiornamento do PT?
Chico - Se depender de torcida para que aconteça tem a minha. A lógica de acomodação de forças que a crise mundial impõe é de dimensões tão brutais, tão inauditas que exige da esquerda brasileira um desassombro igualmente inusitado.

CM - E os recursos para esse ciclo de investimentos pesados?
Chico - O PT tem a base sindical e a base sindical tem o controle de todos os fundos de pensão (NR: os fundos de pensão aplicam apenas na dívida pública federal recursos da ordem de R$ 155 bilhões de reais). Então tem recursos para serem remanejados e repactuados com a base trabalhadora; dentro dela o PT desfruta igualmente de massa e representatividade.

CM - Essa é uma agenda para 2010?
Chico - É uma questão delicada para ser tratada num debate aberto; sem oficialismos de uns, nem preconceitos de outros. A história brasileira repete um impasse do desenvolvimento que não pode ser respondido com uma farsa porque seu resultado seria uma tragédia. Dessa vez o que se vislumbra como possível, repito, é fazer por baixo, com bases sociais existentes, e organizações disponíveis, aquilo que nos anos 30 e nos anos 50 se fez por cima: destravar o desenvolvimento e expandir o mercado interno. É preciso tratar isso com cuidado, insisto, sem oficialismos do PT, nem o sectarismo do Psol e do PSTU.

CM - A candidatura de Dilma Roussef pode oferecer a amarração a esse esforço?
Chico - Honestamente não conheço a ministra Dilma, exceto pelo que leio da má vontade explícita da mídia em relação a ela. Torço para que seja aquilo que amigos petistas dizem que é. Ou então, que seja alguém como o Gabrielli, o presidente da Petrobrás, que certamente também sabe o que está em jogo e as variáveis para sair da crise. Trata-se de articular uma coalizão de forças dentro da qual o PT seria o operador porque é quem tem massa e liderança eleitoral; os grupos à esquerda teriam seu papel de ponta-de-lança. O fundamental é ter um debate com muita abertura e sem preconceitos.

CM - Se a crise se agravar há risco de a oposição ganhar terreno e viabilizar uma vitória de Serra?
Chico - Serra antes de ser um personagem político é um caso psiquiátrico. Qual é o seu projeto afinal? É a obsessão pessoal e doentia pelo poder. Diante de uma crise da proporção que temos pela frente, porém, se você não avançar será soterrado por manifestações mórbidas. A pá de cal viria na forma de uma vitória tucana em 2010; aí sim estaríamos todos fritos. Eles ficariam aí por mais dez anos.

 



Escrito por maiafolias às 11h53 AM
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