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Matraca Cultural


Da dificuldade de se ser otimista

Essa semana fiquei pensando que, talvez, devesse escrever alguma coisa otimista. Algumas palavras que elevassem a atuo-estima dos leitores e a minha própria. Um abandono do Martinho e uma vitória parcial de Panglos, mas confesso que é difícil nesses tempos quaresmais onde ainda penitenciamos as diabruras realizadas durante os dias de "momo". Ou seja, nos últimos anos no Brasil, a quarta-feira de cinza, entenderam porque escolhi esse dia pra ser o dia da "Matraca Cultural" e porque ela se chama "Matraca", etc. e tal?, deveria se estender pelo ano todo. Bem, se fossemos nos penitenciar das diabruras momescas teríamos que passar todo o tempo em "vigilia quaresmal", tais as "atividades de momo" que temos assistido ultimamente. Mas quando soube da visita num final de semana do Lula ao Obama, acreditei que seria uma oportunidade de que essa "quaresma" fosse recompensada por algo inusitado e "mágico" propiciado pelo encontro do operário e do negro, ambos realizando o sonho de serem Presidentes dos seus países, tal qual esses programas de televisão tipo "Rainha" por um dia.

Bem, o cenário que imaginei, na minha inocência, era do Obama e do Lula, ao lado de uma churrasqueira, com alguns pagodeiros americanos e outros tantos brasileiros, entre eles poderia estar o Zeca Pagodinho e cantando: "Só ponho/Be bop no meu samba/ se o tio sam pegar no tamborim..." E entre um copo de cerveja e outro, entre um hamburguer e outro (porque americano só faz churrasco de Hamburguer) os dois começassem a equacionar os problemas do mundo e, consequentemente, dos Estados Unidos e do Brasil, tendo como centro das soluções o Homem e não o Capital Financeiro, as montadoras de carro, as grandes industrias, etc. e tal. Ou seja, pela primeira vez na história recente do mundo, dois Presidentes responsaveis por uma massa humana considerável, que são seus governados, deixariam de lado os interesses privados e traçariam uma "plano Marshal" tipo salvando o ser humano. E veja, tudo isso durante um churrascão de confraternização. Por exemplo: a Hilari poderia aprender uns passinhos de samba com a Dilma; o Celso Amorim poderia falar com o Biden sobre anedotas de Portuquês e ele de Irlandes; o Minc, que convenhamos é um "pé no saco", trocaria umas idéias com o Al Gore sobre as árvores e plantas amazonicas e no fim da conversa poderiam abraçar uma árvore juntos; o Mantega poderia conversar com seu equivalente americano ( que não sei o nome de cor) sobre a implantação de uma loteria continental para dar casas para os sem tetos de toda a América; o Tarso Genro poderia dar umas idéias para o Secretário de Justiça americano sobre como parar com essa sacanagem com os Cubanos e parar de torrar o saco do Fidel e de todos os Cubanos da ilha. E assim, nos gramados da Casa Branca, com a dona Marisa e a dona Michele trocando receitas de comidas e de como aguentar o mau humor de seus esposos depois de um dia enfrentado o Capital Internacional, veríamos surgir um "Novo Mundo".

Vocês vão me dizer que acordei com sindrome de "Mágico de Oz". Tudo bem, mas porque a gente não pode uma vez na vida imaginar o inusitado? E porque a gente não pode crer que um dia, governantes de origem humilde não possam assumir a ideologia de sua origem social e não daqueles que os empregaram, os exploraram e os fizeram crer que estar no mundo já era um grande milagre do deus Capital e Mercado? Ora, com essa falta de horizonte (vou empregar o termo do Professor Paulo Arantes, porque achei chique e porque dá um enquadramento ficcional bacana) até é possível que isso venha a acontecer. É certo que não vai ser hoje ou amanhã, mas quem sabe um dia? Vocês já imaginaram se o Serra ganha a eleição de 2010 e numa profunda crise de consciência ( vocês não esqueceram que o Serra é filho de um trabalhador honesto do Mercado Municipal de São Paulo, esqueceram?)  resolve governar para o pessoal da Móoca, quero dizer, para o trabalhador honesto e não para a "elite branca", como gosta de dizer o nosso grande Claúdio Lembo. Ou melhor, já pensaram se um grande industrial, tipo José de alencar, ganha as eleições de 2010 e resolve assumir seu lado proletário? Eu sei que o normal é o contrário, o operário assumir a ideologia do Industrial e do Capitalista, mas convenhamos, se Deus existe, pode ser, pode ser que um dia venha a se dar o contrário. Por exemplo: quem diz que o Edir Macedo não possa acordar uma manhã convencido de que é Jesus e fidel a Deus? 

Esse cenários são improvaveis, eu sei. Mas quem diria que seria provavel que um operário seria eleito Presidente da República no Brasil? E mais, quem diria que depois de eleito começaria a pensar como seus antigos patrões, isto é, a favor do Capital? Quem diria há dez anos atrás que a Venezuela teria um Presidente do tipo Hugo Chavez e que esse tentaria realizar a revolução bolivariana sem pegar em armas? E que a Bolivia ia ter um Presidente índio? E que esse iria fazer uma constituição dando voz e direitos a seus semelhantes, coisa impensada desde o século XVI? Se os colonizadores tivessem tido essa antevisão, talvez, eles tivessem eliminados todos os índios lá atrás quando do processo colonizador. Mas não tiveram e ai está Evo Morales criando essa confusão, sádia, para os nossos "senhores cultos e poderosos de outrora". Bem, tudo isso não aconteceria se a Massa, o povão, não fizesse alguma coisa. Isso é, toda grande tragédia, para ser uma tragédia, necessita de um Coro ativo e altivo. Necessita de um corifeu capaz de ser porta-voz das reivindicações básicas do Coro. E como todo processo criativo no teatro, para acontecer, só necessitamos de realizar alguns ensaios, para que todos saibam a função que terá que desempenhar na encenação final.

Essas coisas não acontecem porque a gente deixou de ensaiar. Todos nós fomos transformados em "espiões" da vida, como dizia Mário de Andrade. Não sabemos mais ser protagonistas de nossa história, só sabemos é assistir ela passando diante de nossos olhos e vidas como se estivessemos diante de uma tela plana de 42 polegadas. Em plena sociedade do espetáculo as classes excluídas abriram mão de serem parte ativa do grande espetáculo, preferiram se transformar em meros espectadores. Ou seja, abriram mão de serem cidadãos convencidos que era melhor serem apenas consumidores. Consumidores de imagens, de suas míseras vidas, da história que escrevem para eles uma minoria, enfim, abriram mão da vida em prol de uma "imagem da vida". Querem uma confirmação dessa tragédia? Hoje em dia está muito difícil de ser fazer teatro. E entre outros motivos, porque o consumidor teatral não quer refletir sobre a sua vida e a sociedade onde vive. Como elemento passivo diante da vida, ele quer apenas consumir algumas "imagens" que, aparentemente, são a "vida", mas que o satisfaz e não lhe traz problemas para continuar na sua letargia social. Assim,ele também age diante da realidade. Sabe da corrupção, mas pensa: todos são corruptos (isso inclui ele, claro) então, porque vou perder tempo com isso? O meu patrão está me roubando, mas porque vou reagir se todos os "patrões irão me roubar"? O mundo é assim mesmo, quem pode pode, quem não pode se sacode!

E, conformado com essa pasmeira em que vivemos, não temos mais capacidade de imaginar cenários que seja pura "Utopia". Até as obras de ficção se tornaram obras de fricção. Isto é, elas apenas repetem os "refrões" que lhe impõem os seus patrocinadores. É muito chata essa coisa da literatura, da música, da dança, etc. e tal, ser essa ladainha desesperada do "nada". Se a gente abre o guia de espetáculo, toda semana está estreando alguma obra, de qualquer linguagem que for artística, falando de probleminhas menores, como se não houvessem grandes discussões a serem realizadas sobre o mundo e o Homem. A Política, por outro lado, se transformou nesse repetir acusatório sem maiores consequências. Todo mundo acusa, mas ninguém apura. E as grandes questões não são discutidas. Agora não se fala outra coisa além das eleições de 2010, apesar de todos os candidatos dizerem que ainda é cedo para se discutir o assunto. E no entanto, mesmo sendo cedo, quem está em campanha, não tem nada a propor a não ser mostrar a "folha corrida" do adversário que, em última instância, é igual ao do acusador, já que como está provado, pelas últimas matérias jornalísticas, não se salva ninguém nessa floresta de imoralidades.

E nós, eleitores comuns, aspirantes a cidadãos, ficamos a merce de tudo. Outro dia, por necessidade pessoal, fiz uma pesquisa sobre planos de saúde e me deparei com a seguinte situação: a maioria dos planos que existem estão em situação falimentar ou pré falimentar. Ou seja, todos pagam uma coisa que, quando se precisar não vai ter e ninguém toma uma providência. Mas se um assegurado ficar alguns dias atrasado vai ser punido e, talvez, perder o direito ao tratamento. Mas as seguradoras de saúde parece nada acontecer. E o que faz a Agência Nacional de Saúde, informa no seu site a situação catastrófica da saúde nacional. Mas quem vai chamar a polícia e tomar uma providência? E assim, com diferentes áreas da administração pública e com os negócios privados. É um tal de "salve-se quem puder"! Por isso, por não se ter o que perder, é que deveríamos começar a bolar, imaginar e colocar em prática cenários mais "utópicos" do que esses cenários realistas que temos feito para as nossas vidas. Como diria Martinho- "fodido por fodido, truco!" É essa coragem que tem faltado às grandes massas para redimensionarem suas vidas. Levarem a sério a situação em que se encontram e entenderem que, se não tomarem nenhuma providência, tudo continuará como sempre no "Quartel de Abrantes!".    

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 Falando em Quaresma, uma época de interiorização, conforme prega a Igreja Católica, também deveria ser uma época em que se aproveitasse para se realizar autocríticas em geral. Poderiam ser até públicas, uma inovação, por exemplo, para o mundo político. Uma espécie de auto-crítica aos eleitores sobre a atuação política nos legislativo e no executivo. Nestes termos, os próprios padres, bispos, arcebispos, cardeais, etc. e tal, poderiam fazer seus atos de contrição para reverem seus atos. Por exemplo o bispo de Recife com sua excomunhão dos médicos e da menina que foi violentada pelo próprio pai e engravidou. Por sinal vou públicar um cordel sobre o assunto: 

  

A EXCOMUNHÃO DA VÍTIMA

   ( ZÉ  PIABA)   

              
I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria,
Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.

II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.

III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.

IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.

V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.

VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.

VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.

VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.

IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.

X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.  

 

 
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DICA ARTÍSTICA PARA OS LEITORES: 'QUERÔ" EM CARTAZ NO GALPÃO DO FOLIAS, DE QUINTA A DOMINGO. MAIORES INFORMAÇÕES TELEFONE:33612223.

 

 




Escrito por maiafolias às 04h17 PM
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