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A Opção Pelo Atraso
GROTÕES: Regionalismo: Brasil. Uso: informal.lugar, região longínqua, ger. o interior, em relação aos centros urbanos.Ex.: os grotões votaram em massa nos candidatos conservadores Todo país com desenvolvimento desigual como o nosso, o que antingamente era chamado de subdesenvolvido e hoje é nomeado de emergente, se vê constantemente diante da necessidade de escolher entre ficar preso ao atraso ou forjar uma nova realidade que o supere. Obviamente, para muitos leitores, pode parecer inacreditável que alguém diante do atraso e do avançado possa escolher o primeiro. No entanto, analisando a realidade desses países emergentes e/ou subdesenvolvidos, como se queira, não só é uma possibilidade como é a opção primeira de muitos governos. A maneira de Bertolt Brecht vamos mostrar porque isso se dá em maior constância do que possamos imaginar. Para melhor compreensão do que pretendo vou discutir esse assunto tendo em vista a Questão Cultural. Vamos pensá-lo não só enquanto criação de "obras de arte", nas diferente linguagens artísticas, mas no sentido maia amplo que conforma, até, os costumes de um povo/país. E apesar da Questão Cultural não ser uma Questão de Estado em muitos países, no nosso continente assim se dá em sua grande maioria, vamos compreender porque em todos os governos, há uma política cultural, que passa como não sendo uma "política", mas que útil aos interesses de manipulação e de dominação dos políticos, mesmo daqueles que se declaram "progressitas e do lado do Povo". São políticos e políticas que, ao serem formulas alegam fazer justiça, mas estão optando ao clientilismo que sobrevive nos "grotões", tal qual na definição do Dicionário do Houaiss. No Brasil, para falarmos de nossos próprios pecados, essa opção pelo atraso fica nítida quando se discursa, se escreve, se teoriza sobre as nossas diferença regionais de desenvolvimento. Antes do importante ensaio do Prof. Francisco de Oliveria sobre a convivência dos dois brasis, se acreditava que o "atraso" nordestino nada tinha a ver com o "desenvolvimento" do sudeste e sul do país. Não se entendia que para ter a São Paulo industrializada, era necessária a existência do nordeste paupérrimo e atrasado. Ora, assim como durante muitos séculos não se entendeu que, para a existência da Europa iluminista culta e civilizada foi necessário o Novo Mundo escravocrata, dependente, governado segundo os interesses dos colonizadores. A a cultura, nesse caso é uma boa área como um exemplo fantástico da importância da superação e ruptura com as política que privilegiam os grotões. Até a vinda da Comitiva Real para o Brasil, fugindo de Napoleão, isto é, até a chegada de Dom João VI e sua corte, a colonia brasileira estava proibida de ter gráficas, de imprimir seus escritos, jornais, panfletos, etc. e tal. Ou seja, o Brasil até o início do século XIX dependia da metrópole em tudo que disesse respeito ao processo gráfico de imprensão, fundamental para acabar com o analfabetismo e para a difusão e divulgação do saber e do conhecimento. Talvez, não seja por outro motivo que até hoje não temos uma grande tradição de leitura, não seja a literatura um fenômeno de massa. Mas foi essa proibição, essa Censura que possibilitou que uma série de questões políticas, que eram comuns e de assimilação popular na Europa só nos tocassem tardiamente. Entre essas questões está a escravatura, a última a se encerrar em todo o mundo. Essa "ignorância" dos acontecimentos, das teorias e reflexões levada a efeito em outros países, é que nos fez dependentes e ligados a metrópole por tantos anos. Entre nós o processo de "alfabetização" em massa é um fato histórico recente. Se levarmos em consideração que Dom João VI veio em 1808, que só então foi permitida a indústria gráfica, vemos que todo esse processo tem apenas 200 anos, o que historicamente é nada. Mesmo fazendo 200 anos da permissão para a impressão de livros e etc. e tal, temos ainda que discutir que o processo de alfabetização e universalização da educação pública em nosso país é carente e distorcido até hoje. De novo a questão Cultural é excelente para nos revelar essa injustiça e "política camuflada" de nossa elite branca. Em pleno século XXI se arrasta no congresso a discussão de "cota" para os afro descendentes terem acesso as universidade públicas, já que ao se discutir isso deu-se por "normal" a desqualificação do ensino público gratuíto. E ainda há, no Congresso atual, uma série de políticos que são contra, alegando outras razões,pretensamente democráticas, para não se aprovar as cotas. O que deixa claro essa discussão? Primeiro, o nosso país tem um sistema de distribuição de renda mais injustos do mundo. Não por outro motivo ainda tantas crianças está fora do sistema educacional, porque tem que ajudar seus pais na renda familiar, isto é, tem que trabalhar. Esse sistema injusto de distribuição de renda é coadjuvado pela distribuição injusta de direitos. Ou seja, o sistema público de ensino brasileiro é de péssima qualidade, tendo como alunos os excluídos do poder e da renda. População que forma o grande exército de mão de obra desqualificada, fundamental para a "acumulação do capital", já que sua remuneração é muito próxima do mínimo necessário e curral eleitoral de políticos inescrupulosos. A existência de ong´s trabalham na qualificação dessa mão de obra, o faz para mantê-las desqualificadas e suprirem as exigências de "sociedade que se diz democráticas". O ensino de informática, para suprir a necessidade das caixas dos supermercados, são os cursos mais encontrados. E porque tem que se manter esse grande exército "ignorante"? Esse é outro dado cultural importante do país. Quanto mais inculto forem as massas, mas fácil será para a existência e manutenção dos políticos que tem na política uma forma de aumentar o seu "Capital". Isso é, não vou nomeá-los de "coroneis" da política, porque isso dava conta do assunto nos anos 30/40, hoje esses políticos estão concentrados nas cidades, manipulam os eleitores nos "grotões", mas defendem o que há de mais avançado em capitalismo globalizado, isto é, os interesses das transnacionais, do agro negócio, etc. e tal. Para esse político e para esse tipo de Partido Político, quase em sua mioria dos existentes hoje, não interessa ter um indivíduo crítico, com uma visão crítica do mundo em que vive. E isso é válido para o nordeste, para o Estado de São Paulo e para a cidade de São Paulo, onde está concentrado o setor da econômia mais avançado do país, que é o setor de serviços. E como se dá essa opção em termos culturais? Quando analisamos que a cultura não é uma questão de Estado passamos a compreender o porque ela é tão desmerecida e ignorada nos orçamentos públicos e está entregue ao setor privado, através das Leis de Incentivo, para se realizar como criação. Vamos analisar primeiro como se dá esssa "atuação" nos grandes centros, onde se concentra a mudernidade e o "progresso", para usar duas palavrinhas bem desgastadas. Nos grandes centros industriais o grande instrumento de manutenção dessa "política conservadora e atrasada" está entregue ao capital privado. E porque isso? Num país emergente como o nosso, onde os grandes capitais vêem só para aumentar sua lucratividade e não para se implantar e criar raízes, não tem nenhuma preocupação com uma possível "função social do Capital". Acreditar nisso é como acreditar que o lobo vai tomar conta das ovelhas sem cair em tentação. O investimento das grandes transnacionais e Estatais nas Leis de Incentivo só visam, baixo custo, a divulgação e dessiminação de suas "marcas" junto as grandes massas. Vide, por exemplo, os mais diferentes festivais de música eletrônica, etc. e tal, que são feitas pelas cervejarias nacionais para atingir os jovens(sempre são de música estrangeira e ligadas a grande industria cultura transnacional). Ou o financiamento de atividades ditas de "inclusão social", como os projetos que ensinam alguma habilidade para um excluído, visando a identificar sua marca com as ações de "preocupação social" com os brasileiros em geral e servindo de paráchoque da rebeldia. Ou seja, para essas transnacionais e estatais a Questão Cultural é, assim como a questão social, uma forma de divulgação de seus produtos e marcas. Poucos estão interessadas na "cultura e no seu desenvolvimento". Por outro lado, ela só empregará seus recursos naquelas criações que correspondem a seus interesses comerciais e divulgam a sua ideologia. Caso isso não se dê, elas simplesmente não financiarão, isto é, elas censurarão. E tudo isso, vale dizer, é lucro certo para as grandes empresas duas vezes. Uma vez porque divulgam suas marcas, outra vez porque fazem tudo isso com o dinheiro público, já que o dinheiro que aplicam é resultante de impostos que deixam de pagar. Isso é, fazem tudo isso sem enfiar a mão no bolso e dispender recursos próprios. Para os governos que optam pelo atraso, esse tipo de política é usada como se fosse o que demais avançado há para financiar a cultura. Sendo que, mesmo antes da crise financeira que atravessa o mundo esse modelo já estivesse superado nos centros mais avançados. Aqui, como no restante da América Latina, essa política foi uma justificativa para o Estado se desonerar da Questão Cultural que foi entregue ao setor privado. E porque é um atraso? Vamos analisar sob o seguinte prisma. Num país com desenvolvimento desiqual as regiões que mais sofrem com uma política baseada no Capital privado são aquelas cujo processo de industrialização é tardio ou não realizado plenamente. São as regiões que ainda dependem economicamente da economia estrativista ou rural não exportadora. Essas regiões não tem como se beneficiar do possível financiamento do Capital, já que não há grandes excedentes e o seu modo de produção não necessita dessa "ferramenta" publicitária para otimizar lucros. Essas regiões são punidas duplamente. Pela ausência de orçamento público para a área de cultura, já que como dizem as regiões mais avançadas a cultura é mercadoria e deve se virar com as leis de Mercado; e com a ausência de empresas interessadas em aplicar seus recursos na área cultural. Elas ficam entregues a esse abismo onde o que se nota é a ausência do Estado que não cumpre com suas atribuições e obrigações. Isso não se dá só na Cultura, mas em todas as áreas que não são do interesse do Capital, logo, do próprio aparelho de Estado que é dominado pela ideologia do sistema capitalista. E porque os políticos locais não reagem a essa ausência do Estado, da falta de orçamento público para a área cultural? Esse ponto é o mais importante. Os políticos não reagem por dois motivos. Primeiro, por "ignorarem" a questão cultural. Eles mesmos são, em suas maioria, incultos. No máximo acreditam que cultura é aquilo que é divulgado pela "indústria cultural", isto é, aquilo que passa na televisão. E quando são cultos, as vezes se encontra algum, nada fazem porque sabem que, se a grande maioria da população tiver uma vida cultural "sadia", desenvolverão o seu senso crítico ficando mais difícil de serem manipuladas e controlados politicamente. Ou seja, é melhor mantê-las "ignorantes" de sua potencialidade criativa, mantê-las como simples consumidoras da cultura que lhes é oferecida pela televisão e o que lhes é vendido como cultura pela mídia impressa, eletrônica, etc. e tal. Outra motivo para esses políticos "ignorantes" não fazerem nada é o uso da criação popular, descontextualizada, "folclorizada" (há um sentido pejorativo para essa palavra, tal como para a denominação de teatro amador), isto é, como manifestação do "povo" que não tem qualidade, coisa a ser usada no fomento ao turismo, mas que nada acrescenta ao mundo da cultura. O que na sua origem é uma criação que expressa a identidade da comunidade, é esvasiada de seus conteúdos críticos e transformada em manifestação exótica. Dessa forma esse contingente social é mantido sobre a tutela desses manipuladores que, utilizando-se do dinheiro público, na maioria dos casos, financiam economicamente essa ou para aquela manifestação, conforme se materialize a sua fidelidade e servilidade ao mecenas de plantão. A política do guichê, do quem indicou, de que partido é você, para que faz a sua "arte"? Quando viajamos pelos grotões conhecemos uma proção desses "artistas" protegidos pelos mecenas locais. Vocês já viram algum salão de artes, com as infinidades de margaridas e montanhas pintadas e expostas com se fossem arte plásticas? Ou as milhares de academias de letras interioranas, não muito distintas da Academia Brasileira de Letras e seus fardões. Para quem não sabe o que é isso leia "Ato Cultural"de José Ignácio Cabrujas. Essa opção pelo atraso revela-se com uma forma eficaz de manter a sujeição de populações inteiras, para não se dizer de um país inteiro, a interesses que não são os seus seus iludidos que estão com essas "forma dopantes" de se apresentar a realidade ao cidadão. Aparentemente não teriam as criações culturais nenhuma outra função do que propiciar horas de lazer para quem pode pagar por ela. Isso é o que nos informa os grandes administradores das coisas culturais pelo viés do atraso, da conservação, da manutenção da grande maioria da população na sua santa ignorância. Collor sabia disso e quando tomou posse indicou Ipojuca Pontes para fazer o serviço sujo na área cultural acabando com as disferentes fundações, caso da FUNDACEN, por exemplo. E entregou ao Mercado o que era função e obrigação do Estado como está escrito na Constituição Federal. O mais curioso é que os governos que o sucederam continuaram a praticar a mesma "política cultural"- aquela que é ditada pelo interesse do Capital privado, utilizando dinheiro público, dizendo o que pode e o que não pode ser feito. A ausência do Estado na área cultural é o que nos faz ficar em dúvida sobre quem somos e o que somos. O que nos dificulta a identificar os nossos desejos e sonhos de presente e futuro. A nos reconhecer em nosso passado e com isso sabermos que fio invisível da história nos une a nossos antecessores. Enfim, essa falta de identidade cultural é o que faz o mercada se tornar global, é o que nos faz com vestir e comer aquilo que nada tem a ver com o nosso clima e nossos hábitos. Essa falta de identidade cultural é o que mantêm em alta e em expansão o mercado mundial do Mac donald's, da calça jeans, do chiclete, das camisetas com escritos em inglês. É o atraso cultural, social e político que tanto interessa as forças da conservação. ____________________________________________________________________________________________ Em cartaz: "Querô" - Galpão do Folias . "A Curandeira" e "Encruzilhados"no Centro Cultural São Paulo.
Escrito por maiafolias às 03h32 PM
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